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Sejamos velhas, diabólicas e selvagens

CLARA CALDEIRA

 

Palavras são chaves. Palavras criam llamar o tocar a la puerta(1) que significa, tocar o instrumento ‘nome’ para abrir uma porta. Palavras são códigos poderosos, capazes de acessar passagens para outros mundos.

 

 

Acho muito bonito e importante isso. Isso de tocar o instrumento “nome” para abrir uma porta.

 


Isso que diz da força das palavras mantém minha fé (cega, quase) na língua, na linguagem. 

 

 

Palavra é arma que corta. Corta pra ferir, mas é de cortar também pra abrir caminho, pra libertar. 

 

 

Palavra, vez por outra, rompe barreira, gritando. Palavra é grito de luta e de guerra. 

 

 

Palavra é faca amolada.  

 


Pra começar a conversa, então, achei de lembrar que “velha” não é palavra ruim, de ofensa nem de xingamento. Por que então escondemos as velhas por trás de outras palavras? “Idosa”, “melhor idade”, “madura”. Não somos frutas, por favor.

 

 

Aprendi da luta antigordofobia a desconfiar do negativo que condena algumas palavras. Assim como “gorda” não é palavra ruim, de ofensa, nem de xingamento — e, portanto, não carece de eufemismos, como “gordinha”, “acima do peso” e “plus size” —, velha não é, tampouco.



Então, chamemos as velhas de velhas. Passemos a escutar e dizer “velha” não mais como crítica ou defeito, mas característica e, mais ainda, elogio. 

 


Pronto. Agora podemos começar.


 

Na semana em que escrevo, Madonna causou alvoroço. Ela foi criticada por postar foto de topless. Topless “bem comportado”, é verdade, com mamilos tímidos, escondidos por mãos, coisa e tal. Desses que se esquivam de censura digital até.  


Na linha de frente das “velhas safadas”, que ousam sensualizar com sessenta passados, vem rebolando também a “Rainha dos Baixinhos”. Xuxa, vira e mexe, publica um seminude ou outro, que termina notícia.  

 

 

Alguns anos e passos atrás, mas já abrindo alas pra ousadia que é ser sensual e velha, avisto Suzana Alves. A ex-tiazinha causou rebuliço recente. Apareceu com cabelos brancos, sem retoques na raiz. Recebeu elogios, muitos, mas foi bombardeada com críticas, claro.

 

 

Mas pouco tem de novidade nessas notícias. Madonna pelada é mais trivial do que Caetano veloso estacionando o carro no Leblon. 

 

 

A notícia, em verdade, deveria ser: por trás de qualquer símbolo sexual, existe um ser humano. E seres, humanos, envelhecem. Vejam só.

 

Pode parecer óbvio, mas talvez não seja.

 


Madonna está ficando velha, Xuxa está ficando velha, Tiazinha está ficando velha e Brigitte Bardot então, nem se fala.

 

 

Mas me interessa pouco a desconstrução dos mitos, deixo isso para Tom Zé e seus intérpretes. Me interessa olhar é para as mulheres. As mulheres por trás dos mitos. 

 

 

Sim, estão ficando velhas, elas, nós... Outras mais novas virão, e depois, também vão ficar velhas. E assim sucessivamente, pois é disso que a vida, afinal, se trata. Nascer, envelhecer — transar bastante nesse meio tempo, se possível — e morrer um dia. 

 

 

Ilusão persistente

 

 

Parece que foi ontem ainda que me deparei com meus primeiros fios de cabelo branco. Eram três, reluzentes e rígidos. Bem brancos, bem visíveis, bem na franja. Eu estava perto de completar trinta. Bem simbólico. 

 

 

Passaram-se três anos, de lá pra cá, e os cabelos brancos se multiplicaram, como é natural. Digo isso, pra me apresentar um bocadinho e me colocar no meu lugar (de fala), quando escrevo sobre mulher e velhice.

 

 

Mas assim como a luta antirracista não pode contar apenas com os negros pra transformar as estruturas, não podemos deixar nossas ancestrais sozinhas no campo de batalha. A luta contra o “etarismo’’ e a estigmatização da velhice feminina não pode ser só das velhas. 

 

 

Cabe a nós, jovens, adultas, adolescentes ou o que for, lutar também pela liberdade das velhas de hoje, e pelo direito de sermos velhas um dia. 

 

 

Lutar pelo direito à velhice é lutar pelos direitos das mulheres. Direito de sermos velhas transantes e taradas, se assim quisermos, ou não, mas, acima de tudo, de sermos “velhas”, e livres. 

 

 

Para além da empatia, que é algo mesmo muito bonito e potente, é tudo uma questão de tempo. As jovens de hoje serão as velhas de amanhã. “A distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão persistente”, disse Einstein um dia, do alto de sua cabeleira branca.

 

 

 

Mas homem pode, e sempre pôde, ter cabelo branco, sabemos. Isso, aliás, é sinal de autoridade, credibilidade, charme até, para o homem. Mas a mulher… Ai da mulher que ousa assumir o cabelo branco. 

 

 


Bruxas, índias e canibais

 

Tenho lido muito sobre bruxas e bruxarias. Sobre a caça às bruxas, em especial, que começou na Europa no século XV, e se estendeu para as Américas com o início das invasões das terras indígenas pelos europeus. 

 

 

Me descobri bruxa nova ainda. Mas só em tempos mais recentes comecei a investigar tudo que existe de político por trás desse arquétipo poderoso. E puxa, não é coisa pouca!

 


As epidemias de peste e de cólera que castigaram a Europa nos últimos suspiros da Idade Média, deixaram como herança, além de muitas mortes, uma extensa população velha.

 

 

Sobreviventes.

 


Uma das consequências, foi o fortalecimento do poder de pessoas de idade. O choque de gerações, foi efeito colateral. “As pessoas velhas começaram a ser ridicularizadas em ambiente públicos”. (2)

 

 

Para me ajudar a desenrolar este, que é um novelo semiótico grande e embaraçado, peço ajuda à socióloga Isabelle Anchietta. Olhando e pensando quadros, gravuras, textos e detalhes, Isabele esforçou-se em desvendar o que esconde a imagem da mulher no ocidente moderno.

 

 

Com este propósito, Isabele descreve também o processo de estigmatização da mulher velha. Ela atribui aos jesuítas, e a seus relatos sobre as práticas canibais tupinambás, um papel crucial no processo de depreciação da velhice feminina. 

 

 

Isabelle aponta uma vinculação intencional das índias velhas canibais ao diabo. Em suas palavras, “uma interpretação povoada de superlativos e julgamentos morais”. (3)

 

 

A imagem das índias anciãs “gulosas” e “diabólicas” caiu como uma luva. Alimentou o estereótipo, já dominante na Europa, da velha associada à avareza (qualquer conexão com autonomia e emancipação não é mera coincidência).

 

 

Mas a caça às bruxas na Europa foi também, segundo Silvia Federici — autora da minha ‘bíblia’ pessoal “O Calibã e a Bruxa” (se ainda não leu, leia. Vou deixar o link pro PDF grátis no fim do texto) — o primeiro passo para a “transformação da atividade sexual feminina em um trabalho a serviços dos homens e da procriação”. (4)

 

 

 

Esse foi o ponto de virada. Tornaram-se criminosas, a partir de então, todas as formas de sexualidade não procriativa.

 



Mas nas histórias, sejam elas ficção ou realidade, nenhum ponto da trama se dá ao acaso. O capitalismo, para ensaiar seus primeiros passos, demandava uma nova disciplina corporal produtivista, para o sexo e para o trabalho.

 



Essa nova disciplina negava às velhas, que já não eram férteis, o direito a uma vida sexual.

 


A caça às bruxas inverteu, assim, a imagem da mulher velha. Sai de cena o símbolo de autoridade e sabedoria, que dá lugar a uma representação de esterilidade e hostilidade à vida.

 

 

 

Velhas são perigosas

 

Enquanto me aprofundo em pesquisas de Silvia e Isabelle, e na minha própria, tem uma coisa que não me sai da cabeça. 

 

 

 

O projeto de poder hegemônico — e, nesse caso, estou falando especificamente do capitalismo — teme as velhas. 

 

 

 

Desde o século XV até os dias atuais, o capitalismo vê as velhas como algo muito perigoso.

 

 

 

Indício maior dessa suspeita é mesmo o tamanho dos esforços dedicados à completa inferiorização da mulher velha, desde os tempos remotos, até os atuais.

 

 

 

Seja nos relatos dos jesuítas, nos filmes de Hollywood ou nas redes sociais, a mensagem é clara: tente adiar a velhice ao máximo e, quando não for mais possível, recolha-se à sua insignificância, o que indica silêncio e invisibilidade.

 

 

 

Mas, afinal, o que é que as mulheres velhas têm que o capitalismo tanto teme? 

 

 

Eu tenho um palpite. 

 

 

Conhecimento e autoconhecimento, ou seja, poder...

 



Conhecimento ancestral sobre a vida. Histórias passadas de geração em geração. Saberes acumulados. Saberes profissionais, acadêmicos ou saberes sobre ervas, plantas e curas. 

 

 

Consciência do próprio corpo e da própria sexualidade. 

 

 

Consciência dos abusos e violências que atravessaram e atravessam esse corpo e essa sexualidade, e que vão atravessar também os corpos femininos que virão, desse ou de outro ventre.

 

 

Intuição apurada pelo uso constante do lado instintivo da mente, para a sobrevivência.

 

 

Espiritualidade e comunicação com outros planos da existência, fundamentais à sobrevivência também.

 

 

Resistência adquirida pela sobrevivência.

 

 

Velhas são mulheres que sobreviveram. 

 

 

Sobreviveram numa sociedade patriarcal e violenta.

 

 

As velhas sobreviveram, e por isso sabem. E saber é poder. 

 

 

Apesar da importância da interseccionalidade — fundamental a qualquer análise, é importante dizer —, independente de cor, credo, etnia, nacionalidade ou classe social, toda mulher velha, sabe. 

 

 

Toda mulher velha é, em algum nível, uma sobrevivente. 

 

 

Ao colher, entre velhas ameríndias contadoras de histórias, pistas para a reconstrução do arquétipo da ‘mulher selvagem’, Clarissa Pinkolas Estés, mencionada no começo do texto, encontrou nomes como: “a velha”,  “la que sabe”, “la mujer grande”, “la boba”, “a mulher que mora no final do tempo” ou “a mulher que mora no fim do mundo”. (5)

 

 

Como não lembrar de Elza Soares?
Velha, ativa, indignada, sexual. Sofrida, sobrevivente, sábia, poderosa!  

 

 

Aprendemos com Clarissa que as palavras são importante pois criam llamar o tocar a la puerta. As palavras abrem portas, que dão acesso a outros futuros possíveis.

Então, sejamos “velhas”. 

 

 

Sejamos velhas, sensuais, bruxas, gulosas, sobreviventes, diabólicas, taradas e selvagens.

 

Mas, acima de tudo, reivindiquemos o nosso direito de viver a velhice como bem entendermos e retomemos o nosso lugar de poder como “velhas”.

 

Sejamos velhas sim, mas sejamos velhas e livres. Essa é a meta. E quando atingirmos a meta, vamos dobrar a meta. Já diria uma velha bruxa, queimada em praça pública um dia, por reivindicar o seu lugar de poder.

 

 

 

 

 

 

1  ESTÉS, Clarissa Pinkola. mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. Rio de Janeiro: Rocco, 2018.

 

2 LANDENBERGER, Tháis et al. “Velhice”. Revista E-psico, 2001. Disponível em: http://www.ufrgs.br/e-psico/subjetivacao/tempo/velhice-texto.html. Acesso: 9 jul. 2020

 

3  ANCHIETA. Isabelle. “Imagens da Mulher no Ocidente Moderno 1: Bruxas e Tupinambás Canibais”. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2019.

 

4  FEDERICI, Silvia. “Calibã e a Bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva”. Tradução: coletivo Sycorax. São Paulo: Elefante, 2017.

 

5 ESTÉS, Clarissa Pinkola. mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. Rio de Janeiro: Rocco, 2018.

 

PDF de “O Calibã e a Bruxa”:
https://rosalux.org.br/wp-content/uploads/2017/10/CALIBA_E_A_BRUXA_WEB.pdf





 

 
CLARA CALDEIRA

Leitora, escrevedora, bruxa e jornalista, dedica-se atualmente a pesquisas em saúde pública, corpo, comunicação, gênero e meio ambiente. Editora-chefe do Hypeness, e ex-editora no Catraca Livre, circula ativamente há 15 anos pelo ambiente digital, flanando por temas como cultura, meio ambiente, cidadania, direitos humanos, tendências, tecnologia e inovação. Participou de projetos de reportagens, documentários, branded content, mobilizações sociais e formações diversas com ONGs, instituições culturais e publicações digitais variadas. 

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