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Sexualidade fluida, pensamento livrecover

Virginia Woolf: sexualidade fluida, pensamento livre

CLARA CALDEIRA

 

A cabeça doía dos vaivéns hormonais e das taças de vinho da noite anterior. Cíclicos, recorrentes, inevitáveis: os vaivéns hormonais, as taças de vinho.

 

E foi ali, naquela manhã, de um sábado, que já nem manhã era, que começamos a conversa: Susan, Simone, G. e eu. O que teria eu para dizer, afinal? 

 

Já às tantas, depois da terceira xícara de café, o cérebro engrenou e a conversa evoluía. Áudios podem ser chamados de conversa? Pouco importa. 

 

O fato é que, além Susan, Simone, G e eu, algumas bruxas velhas agora davam suas piruetas, e se esforçavam por roubar a cena. Pronto. Estava roubada. O que velhas bruxas querem que não conseguem afinal? 

 

Virginia foi quem chegou por último.

 

Já não me lembro de onde ela veio, se convidada por G. ou por mim. O fato é que lá estava ela, com seu olhar inescrutável. 

 

Virginia já vinha me acompanhando há alguns anos e, nos últimos meses, esteve ainda mais presente, como uma amiga, me ajudando, como G., a pensar e a escrever.

 

Mas ter Virginia por dentro é fácil, difícil mesmo é explicar Virgínia pra fora. Nada é óbvio ou simples na vida e na obra de Virginia Woolf, e a ideia de dizer algo sobre ela para que outras ouvissem me deu frio na barriga. E se eu errar? E se escrever algum disparate?

 

O medo e a insegurança me lembraram um temblón, uma história de arrepiar. O mito grego das Hárpias, o grupo de aves que, para punir Fineu, rouba parte de seu alimento, espalha uma outra, e defeca sobre o resto, cada vez que ele se senta à mesa posta.

 
A “Síndrome das Hárpias” nos destrói através do menosprezo aos nossos talentos e esforços. A partir de um diálogo interno de depreciação que gera medo, insegurança e sensação de impotência ou insuficiência.
Que mulher nunca se sentiu assim ao iniciar alguma empreitada?
 

Mas o convite de G. era sedutor e sensível, como ela. Pairou sobre minha cabeça, ali, naquela manhã tardia, como se desdobrasse um sonho. E talvez tenha mesmo sido. 

 

Tenho tido dificuldade pra distinguir os sonhos da realidade, as coisas têm se confundido. Penso que isso pode ser bom.

 

“É no ócio, nos sonhos, que a verdade submersa às vezes vem à tona”, disse Virgínia.

 

Mas além de sedutor e sonhado, o convite, ainda assim, permanecia um desafio. Escrever-ser livre e falar de Virgínia, da sexualidade em Virginia. O que teria eu a dizer?

 

As velhas bruxas deram seu show com naturalidade. Naquele dia mesmo, decolaram em revoada e se exibiram, desenharam sentidos no céu. Pronto. Estava feito.


Mas e Virgínia?

 

Vínhamos mantendo encontros diários, ela e eu, sob Um Teto Todo Seu (meu? dela?). Num desses encontros, ela me disse que a mulher escritora é um gato sem rabo. Me desafiou a andar pelo gramado e a entrar na biblioteca, a fazer pouco da censura do bedel. 

 

Me disse também que eu seria capaz de pegar um pequeno peixe, se quisesse, e me aconselhou a nunca me contentar em comer apenas ameixas, a desejar o banquete completo, com entrada, prato principal e um bom vinho.

 

Foi ela também quem me disse que “tanto o elogio quanto a culpa não significam nada”. Me garantiu que, contanto que eu escrevesse o que tivesse vontade de escrever, isso é tudo que importa. “E se isso importará por eras ou por horas, ninguém pode afirmar.” 

 

 

 

Morte e Vida Virginia 

Curioso que, apesar de nunca ter sido mãe, a figura de Virgínia tem para mim algo de maternal. De quem estimula a criação e a liberdade e vibra com cada rabisco, cada rascunho, como se fosse obra prima.

 

“Ao escrever, uma mulher relembra através da mãe”, ela disse.

 
Virgínia não pariu crianças, mas deu à luz ideias e pensamentos, que, por sua vez, geraram milhares de outras ideias e pensamentos. Virgínia foi uma supernova, que explodiu e espalhou inspiração e vontade para nutrir a força criativa de muitas mulheres.  
 

Supernovas são estrelas que morrem. São a morte e o parto do céu, opostos, complementares, indissociáveis. Virgínia sabia disso: “Quando levamos à mente uma frase [...] ela explode e dá à luz todos os outros tipos de ideia, e esse é o único jeito de escrever do qual se pode dizer que possui o segredo da vida perene”.

 

Virginia adubou a terra com seu próprio corpo, com sua própria vida, acreditando que “é muito mais importante ser você mesma do que qualquer outra coisa”. E assim foi.

 

No capítulo final de sua história, já exausta da luta contra a depressão, que sempre a acompanhou, Virginia conseguiu, enfim, o que já tentara tantas vezes. Escreveu uma carta de despedida, encheu os bolsos de pedras, e atirou-se no Rio Ouse.

 

Um desfecho dramático que pôs fim a uma existência brilhante e espirituosa, atravessada por guerras íntimas e mundiais, e marcada por sofrimentos profundos.

 

São muitas as biografias que se debruçaram sobre sua trajetória, tentando investigar e explicar Virginia. Desde a pioneira, escrita pelo sobrinho, Quentin Bell, por sugestão do marido, Leonard Woolf, até a mais recente “La Vida Por Escrito”, da jornalista e pesquisadora argentina Irene Chikiar Bauer.

 

Os esforços biográficos empenham-se em desvendar enigmas. Uma eventual responsabilidade de Leonard no suicídio da esposa, a influência da depressão em sua obra, os pormenores relacionados a sua homossexualidade e os abusos sexuais recorrentes na infância.

 

Filha do escritor, historiador, ensaísta e biógrafo Leslie Stephen, Virginia encontrou, também na biografia, enquanto gênero literário, inspiração para uma de suas obras mais emblemáticas, Orlando (1928). 

 

Mais do que inspiração, Virgínia dedicou-se, especialmente em Orlando, à subversão dos formalismos biográficos e da história oficial, tão dominada por uma suposta retidão de valores masculinos.

 

O falso puritanismo dos biógrafos e sua inabilidade diante dos escândalos descobertos e recontados foi um dos alvos prediletos de sua crítica bem humorada e mordaz.

 

O próprio tempo é ressignificado em Orlando. A história do jovem nobre que, a certa altura da vida, torna-se mulher, começa em 1500, atravessa eras e chega ao início do século 20. 

 

Orlando, filme de 1992, protagonizado por Tilda Swinton

 

O século 16, os reinados de Elizabeth I e Carlos II, os séculos 18, 19 e um mundo de aviões e automóveis. Tudo cabe no espaço de uma vida, da vida do lorde/Lady Orlando.

 

Mas não são a relativização do tempo e os contornos de realismo fantástico as maiores rupturas propostas por Orlando. A história do primeiro protagonista gênero fluido ou transexual (dependendo da interpretação) da literatura britânica, rompe com estigmas e tabus em muitos níveis, desde sua origem, de sua inspiração.

 

Antes de mergulhar em Orlando, uma ressalva. Hoje, os estudos de gênero e da sexualidade avançaram muito e procuram fazer distinções cuidadosas entre travestis, transsexuais, homossexuais, mas, para a geração de Virginia, estas distinções eram bem menos claras e o conceito de gênero sequer existia. 

 

Quando se refere a “gênero” a autora usa a palavra “sexo”, conceitos que, hoje entendemos, têm significados distintos.

 

 

Uma carta de amor

 

Além de uma ficção, uma biografia, uma obra crítica e à frente do seu tempo, Orlando é, em primeiro lugar, uma carta de amor. “A mais longa e mais encantadora carta de amor em toda a literatura”, nas palavras do filho de sua destinatária e musa inspiradora, a poeta e romancista aristocrata Vita Sackville-West.

 

Vita foi mais do que uma amiga e fonte de inspiração para Orlando. Ela foi a grande paixão de Virgínia Woolf. O livro The 50 Greatest Love Letters of All Time (As 50 melhores cartas de amor de todos os tempos, em tradução livre — sem edição em português), trouxe a público um dos registros dessa relação. 

 

Orlando, publicação da Crisby Cage, 1928 

 

Entre cartas escritas por Hemingway, Frida e Kafka, está uma correspondência de Virginia para Vita, de janeiro de 1927, em que ela pede à amante que "largue seu homem": 

 

"Olhe aqui, Vita — largue o seu homem, e nós iremos para Hampton Court, jantaremos juntas à beira do rio, andaremos no jardim à luz da lua, voltaremos para casa tarde e abriremos uma garrafa de vinho e ficaremos embriagadas para que eu possa te dizer todas as inumeráveis coisas que tenho em minha cabeça — elas não saem durante o dia, apenas no escuro do rio. Pense nisso. Largue o seu homem, eu digo, e venha." 

 

Cartas como esta converteram-se em documentos históricos importantes e revelam, inclusive, o fato de que os maridos não apenas sabiam, como apoiavam a relação das duas. 

 

Vita era casada com o escritor e intelectual Harold Nicolson, notadamente gay e com quem mantinha uma das relações poligâmicas mais bem documentadas do período.

 

O intelectual socialista Leonard Woolf, por sua vez, soube desde o princípio do desinteresse sexual de Virgínia. Segundo a biógrafa Irene Bauer, “Ela não suportava ter relação erótica com um homem e disse isto a Leonard quando rechaçou [num primeiro momento] sua proposta matrimonial: ‘Não sinto nenhuma atração física por você’”. 

 

Mesmo assim, Leonard aceitou a união e nunca forçou Virginia. Diz-se que Leonard Woolf, diferente de boa parte do círculo social do casal, era estritamente monogâmico e cultivava uma devoção quase obsessiva pela esposa. Num dado momento, chegou até mesmo a incentivar o primeiro encontro sexual entre Vita e a Virginia.

 

Enquanto Woolf não tinha filhos e era sexualmente tímida, como revelam seus diários e cartas, Vita era mãe de dois filhos, sabidamente lésbica, e não fazia o menor esforço para ocultar seus casos com mulheres.

 

Apesar da timidez, Virginia, desde a adolescência, circulava pelo Grupo Bloomsbury, um coletivo de artistas e intelectuais que adotara uma postura de questionamento incondicional dos tabus sexuais.

 

Ali, a homossexualidade e o lesbianismo não apenas eram praticados como discutidos abertamente, e as relações adúlteras eram um elemento bem aceito. Menages à trois, à quatre, à cinq aconteciam com naturalidade e, apesar da tendência de Virginia em participar mais como observadora, a convivência com o círculo contribuiu para que seus sentimentos nunca fossem sufocados pelas convenções.

 

Antes mesmo de seu envolvimento com Vita, Virginia teve uma grande paixão por Violet Dickinson, que ficou registrada por cartas ardentes, divertidas e chocantes, segundo o sobrinho biógrafo.

 

 

Mulheres que amavam mulheres

 

Antes mesmo da concepção de Orlando, o amor entre mulheres já era retratado com fervor nos romances de Virginia. 

 

Em A Viagem (1915), a heroína Rachel Vinrace tem uma ligação intensa com a amiga e mentora Helen Ambrose. 

 

Já Katharine Hilbery, protagonista de Noite e Dia (1919), tem relações sexuais com a sufragista Mary Datchet. 

 

Lily Briscoe, importante personagem de Ao Farol (1927), vive um fascínio pela sra. Ramsay, uma figura com fortes traços maternais. 

 

Clarissa Dalloway, heroína que dá nome ao livro Mrs.Dalloway (1925), recorda o momento da juventude em que é beijada pela amiga Sally Seton como uma experiência erótica marcante.

 

Mas Orlando é um divisor de águas. 

 

Para a obra de Virgínia, para a literatura mundial e para a reflexão e os estudos de gênero. 

 

A trajetória do jovem nobre que um dia acorda mulher, ao mesmo tempo em que questiona a ideia de que os papéis sociais e eróticos de gênero são determinados pela sexualidade biológica, expõe as desigualdades entre homens e mulheres. Tudo isso, sentido e percebido por um homem que, transformado, passa a experimentar essas violências no próprio corpo.

 

 

Tilda Swinton em Orlando (1992), filme de Sally Potter

 

Muito antes de Simone de Beauvoir publicar seu revolucionário “O Segundo Sexo” (1949), e escrever a frase “Não se nasce mulher: torna-se mulher”, que se consagraria um dos símbolos mundiais da luta feminista, Virginia Woolf já nos conduzia por um prelúdio dessa epifania.

 

Orlando não nasce mulher, torna-se mulher, e, com essa transformação, passa a experimentar as dores e as delícias desta forma de existir sem, em nenhum momento, deixar de ser quem era.

 
Em Orlando, Virginia provoca, com uma manobra engenhosa, um exercício de empatia e desconstrução sem precedentes na literatura, com uma naturalidade e uma leveza desconcertantes.
E não é Orlando o único a transcender os limites de gênero na narrativa.

Tilda Swinton em Orlando (1992)

 

Depois de tornar-se mulher, seu amante e seu marido também ostentam guarda-roupas variados de ambos os sexos e transitam para lá e para cá em algum momento da trama sem grandes sobressaltos.

 

O crescimento da psicanálise e da nova disciplina da “sexologia” nos primeiros anos do século 20 foi um importante pano de fundo para as reflexões de Virginia, que culminaram de certa forma em Orlando. Em contraponto aos pensadores vitorianos, que pregavam que a masculinidade e a feminilidade eram inatas, os sexólogos começaram a chamar a atenção para a fluidez de gênero.

 

A Hogarth Press, editora pequena porém influente, comandada por Leonard e Virginia, publicou livros de nomes importantes do modernismo como T.S. Eliot e Katherine Mansfield, além da tradução, para o inglês, da obra completa de Sigmund Freud. 

 

Mas foram as teorias de sexólogos como Edward Carpenter e Havelock Ellis acerca da fluidez de gênero que influenciaram de fato as reflexões de Virginia, contrariando radicalmente a determinação freudiana de que “anatomia é destino”.

 

 

Não sentir medo

“Não mais temas o calor do sol. Nem as iras do inverno furioso”, aconselham as primeiras páginas de Mrs.Dalloway, três anos antes da publicação de Orlando. 

 

Mrs. Dalloway, edição da Editora Antofágica com ilustrações lindissímas de Sabrina Gevaerd

 

A liberdade sexual em Virginia Woolf passa pela liberdade de pensamento, pela liberdade de escolha. Pela possibilidade de mulheres escolherem como e com quem querem se relacionar sexual e afetivamente, mas também pela possibilidade de terem tempo, um teto todo seu, ganharem o próprio dinheiro e de criar.

 

A escritora foi uma crítica assídua do que nomeou de “a pobreza feminina”, que confinou as mulheres ao longo dos séculos aos afazeres domésticos, privando-as de uma vida profissional e criativa. 

 
A liberdade sexual é apenas uma das muitas liberdades sob o guarda chuva de lutas e reivindicações de Virginia Woolf, que soube usar todos os privilégios a que teve alcance em vida para praticar a liberdade, e lutou para que, num futuro sonhado, todas as mulheres pudessem andar pelo gramado, entrar na biblioteca e desfrutar do jantar completo, com entrada, prato principal e um bom vinho.
 

Liberdade, sabemos hoje, graças a Nina, é não sentir medo.

“Nada mais temas, diz o coração no corpo; nada mais temas”, foi o que Clarissa Dalloway escutou de dentro num dos dias mais significativos de sua vida. Um chamado de liberdade. Foi o que aprendi também com Virginia, graças ao convite de G. 

 

 

 

 

 

 

Agradecimentos: Um agradecimento especial à Sandra M. Gilbert, cujo prefácio para a edição da Penguin de Orlando, de 2014, me conduziu nessa reflexão, a Dafne, que me lembrou da importância de insistir em Virginia, a minha mãe, que sempre me presenteou com livros, a Laura, que me descobriu supernova, a Camila por me mostrar o fluir só sendo, a Letícia, pela interlocução das angústias, a Yara pela provocação que nunca deixou de ecoar, e a Gabrielle, que me desafiou a pensar Virginia pra fora.

 
CLARA CALDEIRA

Leitora, escrevedora, bruxa e jornalista, dedica-se atualmente a pesquisas em saúde pública, corpo, comunicação, gênero e meio ambiente. Editora-chefe do Hypeness, e ex-editora no Catraca Livre, circula ativamente há 15 anos pelo ambiente digital, flanando por temas como cultura, meio ambiente, cidadania, direitos humanos, tendências, tecnologia e inovação. Participou de projetos de reportagens, documentários, branded content, mobilizações sociais e formações diversas com ONGs, instituições culturais e publicações digitais variadas. 

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