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Carne & Corpo: o erotismo nos escritos de Susan Sontag

GABRIELLE ESTEVANS

 

1º de novembro_Como escritora, tolero o erro, um desempenho fraco, o fracasso. Então, o que importa que eu às vezes fracasse, que um conto ou um ensaio não seja bom? Às vezes as coisas andam bem de fato, o trabalho é bom. E isso basta.

 

 

É exatamente essa atitude que não tenho em relação ao sexo. Não suporto o erro, o fracasso – portanto fico ansiosa desde o início e, portanto, é maior a probabilidade de fracassar. Pois não tenho a confiança de que, durante uma parte do tempo (sem que eu force nada), será bom.

 

 

Quem dera eu pudesse encarar o sexo da mesma forma como encaro a escrita! Que eu sou o veículo, o meio, o instrumento de uma força que está fora de mim.

 

 

segundo volume dos diários As Consciousness Is Harnessed to Flesh: Journals and Notebooks, 1964-1980 [Como a Consciência É Atrelada à Carne], de Susan Sontag

 

 

 

*


Ser Susan já é um arroubo. Ensaísta, dramaturga, ficcionista, diretora de cinema.

 

Ter sido Susan foi um tanto e ainda pouco. Precisávamos de mais. O silêncio da ausência de Sontag é ensurdecedor.

 

Sua prosa provocadora não deixava pedra sobre pedra. Fazia até o mais tacanho dos seres questionar-se de sua miudeza. Passou, mas ficou.

 

Pelo menos aos olhos e ouvidos mais atentos. Você mira um retrato de Susan e sabe: ácida. Tenho vontade de lamber a tela. Sedutora. Fêmea por todos os poros. Campo minado para os meus devaneios.

 

 

Escritora e ensaista americana Susan Sontag participa de um simpósio sobre sexo em Nova York, em 1962. Crédito imagem: Folha de São Paulo

 
 

Seus escritos destroçavam.

 

“Sou uma escritora adversária, uma escritora polêmica. Escrevo para defender o que é atacado, para atacar o que é aclamado. Mas desse modo me coloco numa posição emocionalmente desconfortável. Não espero (secretamente) convencer, e não posso evitar ficar desanimada quando meu gosto minoritário (ideias) torna-se o gosto majoritário (ideias): então quero atacar de novo. Não posso evitar ter uma relação adversária com o meu trabalho.”

 

Peito aberto ao mundo, arriscou ter o prazer como critério ao escolher o que escrevia. 

 

 

 

Prazer. Sexual. 


Se para Geoges Bataille, a quem Susan elegeu como um grande ficcionista erótico, o erotismo era violência e transgressão, para as lentes da perspectiva de gênero, pré-Susan e ainda hoje, o erotismo é um jogo de prazer — e perigo. Susan sabe. Flerta com o desejo, mas sem deixar de notar que abaixo dos pés há terra movediça. 




8 de novembro_Ao longo de dois terços de O Canteiro de Batatas de Greta Garbo [peça de John Roy Sullivan] tive vontade de ser Garbo. (Eu a estudava, queria assimilar, aprender seus gestos, sentir como ela sentia.) Então, já mais para o fim, comecei a desejá-la, a pensar nela sexualmente, a querer possuí-la.

 

O desejo seguiu-se à admiração – à medida que se aproximava o fim de minha visão dela. A continuação de minha homossexualidade?


segundo volume dos diários As Consciousness Is Harnessed to Flesh: Journals and Notebooks, 1964-1980 [Como a Consciência É Atrelada à Carne], de Susan Sontag

 

 

 

Sapiossexualidade. 


Ler Sontag é excitar o pensamento. Criticada, censurada, controversa: mesmo quando errática, o vigor de suas defesas deixa qualquer sangue a ferver.

 

Se no fim da vida, fez a curva, saiu da pista e terminou por acabar em acostamento liberal, a estrada percorrida anteriormente jamais fora de todo apagada.

 

Sua obra é um inferno dantesco para os pretensos, para os autodeclarados normais, para os conservadores.

 

Ler Sontag é gozar do bom gozo. É terminar, enfim, por dizer/ cantarolar: gotas de leite bom na minha cara. Chuva do mesmo bom sobre os caretas. 

 

 

GABRIELLE ESTEVANS

Jornalista, escreve sobre gênero, cultura e política. Também trabalha com pesquisa, planejamento estratégico e projetos com propósito e impacto social.

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