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Saúde sexual: rotina em consulta médica?

PEDRO CAMPANA

 

Em uma consulta médica, vários aspectos da vida da pessoa examinada são questionados. Você já deve ter passado por uma experiência nesse sentido, seja numa consulta de rotina, seja em um momento em que se tem uma queixa específica. O médico ou a médica logo pergunta idade, status civil, ocupação, procedência e até religião. Tais aspectos são considerados básicos frente a uma anamnese — ou entrevista — médica.

 

 

A consulta segue e mais questionamentos são feitos: “sente dor ou algum desconforto?” E a sua queixa inicial começa a ser destrinchada numa busca pelo diagnóstico de algum mal ou morbidade que afete você. São perguntas meticulosas sobre horários, hábitos e vícios e antecedentes familiares. Ao final de trinta minutos de conversa, o médico sente-se satisfeito e prossegue com o exame físico.

 

 

Nesse momento, auscultas e toques podem identificar alterações e fechar o pensamento elaborado pelo médico. A pressão é aferida, o pulso checado. Mucosas oculares e bucais são vistas em busca de evidências de anemia ou lesões.

 

 

Após esse ritual, o médico estabelece seu diagnóstico, prescreve a receita e termina a consulta. Mas, após todos esses questionamentos, será que o profissional de saúde realmente abrangeu todos os aspectos básicos de sua vida?

 

 

Muitas vezes, num consultório de clínica médico ou até mesmo em uma consulta com urologista ou ginecologista, a vida sexual dos e das pacientes não é abordada. Questionamentos sobre número de parcerias sexuais, hábitos sexuais e vulnerabilidade a infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) não são feitos e, quando feitos, geralmente são de maneira inadequada. Um estudo realizado na USP de Ribeirão Preto demonstrou que profissionais de saúde não entendem a abordagem de saúde sexual como elemento importante de uma consulta, bem como não sabem indicar de maneira apropriada métodos de prevenção de ISTs e HIV/aids.

 

 

Ao olharmos para a história da medicina, podemos entender o porquê dessa dificuldade do médico na abordagem sexual. Durante séculos a prática médica esteve intimamente ligada à prática religiosa. Mesmo com emancipação da medicina no campo da ciência, cada vez mais refutando teorias religiosas no processo de adoecer, a questão sexual ainda permaneceu como tabu.

 

 

Infecções sexualmente transmissíveis, tais como a sífilis, além do HIV mais recentemente, foram classificadas sistematicamente como punições divinas. Contrair uma dessas doenças é sinônimo de desvio de caráter e preceitos morais. O reflexo desses exemplos se dá na falta de abordagem de assuntos referentes a questões sexuais no consultório médico.

 

 

O tabu sexual dentro do consultório é extremamente prejudicial. Todos e todas sabemos da importância de uma vida sexual saudável para que a vida na sua totalidade esteja bem. Sabemos também que muitas vezes o paciente tem dúvidas e não consegue encontrar espaço na consulta médica para esclarecê-las.

 

 

O médico precisa questionar fatores de risco para IST e HIV durante a consulta médica. Isso envolve saber número de parcerias, qual prática sexual o paciente gosta mais, se existe algum método de prevenção que o paciente use ou se não usa nenhum. Saber se determinados fetiches podem, em de algum modo, oferecer algum problema de saúde e orientar sua prática de maneira segura.

 

 

Ao acessar a saúde sexual de alguém, podemos acessar o modo como suas relações interpessoais se constituem, problemas gerais que podem afetar desempenho sexual, traumas e questões psíquicas. Podemos, por exemplo, entender que uma pessoa que abusa de álcool e não usa preservativos ou outro método preventivo, nessa situação necessita de uma abordagem de redução de danos em relação ao álcool, bem como apoio para adesão a métodos de prevenção de ISTs.

 

 

Além de ser um assunto crucial numa entrevista médica, a prevenção de ISTs e HIV não pode se encerrar na obviedade da camisinha. É corriqueiro médicos, ao se aventurarem sem preparo no campo da sexualidade, serem inquisitórios quanto ao número de parcerias e categóricos quanto ao uso do preservativo. Um inquérito do Ministério da Saúde realizado em 2015 demonstrou que mais de 95% da população sabe que o preservativo é o melhor método para prevenir HIV, porém metade dos entrevistados refere não ter usado em pelo menos uma relação sexual nos últimos seis meses.

 

 

Por isso, cobrar do médico atualização em relação a prevenção de ISTs é crucial. Além do preservativo, existem profilaxias medicamentosas que podem ser utilizadas para evitar a infecção pelo HIV, por exemplo. Trata-se da PEP (profilaxia com duração de um mês que pode ser tomada até 72h após uma relação sexual desprotegida) ou PrEP (profilaxia na qual uma pessoa que não consegue usar preservativos pode tomar um comprimido de antirretrovirais para evitar a infecção pelo vírus). As testagens regulares para sífilis e hepatites, bem como o tratamento precoce de ISTs também ajudam na prevenção do HIV.

 

 

Abordar saúde sexual em uma consulta médica é complexo, mas não deve ser tabu. O acolhimento do profissional de saúde é crucial nesse momento, sem julgamentos ou condenações. Tratar de saúde sexual é uma oportunidade de vínculo, entendimento e melhora da qualidade de vida do paciente. Por isso, quanto mais entendimento e honestidade tiver, melhor. Façamos: vamos amar!

 
PEDRO CAMPANA

Médico infectologista formado pelo Instituto de Infectologia Emilio Ribas. Atua como infectologista na Santa Casa de SP, no ambulatório de HIV do Hospital das Clínicas da FMUSP. É também intensivista na UTI do Instituto de Infectologia Emilio Ribas. Escreve para coluna de saúde LGBTQIA+ da Carta Capital.

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